18.8.06

Anjo

POR KARINA NINNI, MÃE DE LUCCA E MARINA; MEL MANSUR, FILHA DE LEILA E SÉRGIO; E SARAH MAIA, FILHA DE IESMIN E SAULO

Não é a mamãe!Mesmo que seja bem pequena, a criança logo saca quando o pai se aproxima. “Por mais que os homens hoje não sejam aqueles machões de antigamente, as diferenças no trato com os filhos começam já na própria constituição biológica, ele é mais viril e a criança percebe isso na maneira dele segurá-la, no jeito de brincar com ela. Mãe é mais suave. Pai, mesmo carinhoso, é duro. Nisso as crianças já vão descobrindo um pouco sobre a distinção de gênero, de homem e de mulher”, explica a educadora Tania Zagury. “Os dois têm modos distintos de agir e, por isso, cada um cumpre um papel fundamental e imprescindível na formação do filho”, explica a psicóloga junguiana Áurea Roitman.
E é no dia-a-dia, interagindo com os filhos, que tudo isso acontece. A conclusão é meio óbvia: a criança só tem a ganhar com um pai presente. Historicamente, por muito tempo eles se mantiveram distantes, ocupando mais o papel de provedor, aquele que vai buscar o sustento da família, enquanto à mãe cabia os cuidados e a relação mais próxima com as crianças. A revolução das últimas décadas, com a mulher também indo trabalhar fora, abriu espaço para que haja um equilíbrio melhor. Aumentou também a confusão. Mesmo que ele esteja trocando fraldas, continua sendo pai, é diferente de mãe e é aí que está o barato. Essa diferença rende muita coisa boa, muitos momentos mágicos. Por isso, neste mês dos pais, fomos ouvir o que eles têm a dizer sobre o grude deles com os filhos, as recompensas que isso traz, o montão de momentos emocionantes que colecionam.
Parceria afinadaFábio Ishi, pai de Guilherme, de 1 ano e meio, conta que nunca discutiu com Luciana, sua mulher, por conta dos cuidados com o garoto. “A gente conversa muito. Como ela fez uma cirurgia recentemente, e a recuperação é bem lenta, eu acabo ficando com as tarefas que exigem mais mobilidade, quando estou em casa. Mas, no geral, dividimos todos os cuidados”, garante.
Quando Guilherme nasceu, numa terça-feira de carnaval, ele puxou uma enfermeira de lado e disse: “Olha, eu não sei trocar, não sei pegar, não sei dar banho. Você pode me ajudar?”. De volta ao lar, seguiu à risca as orientações recebidas. “Já tínhamos feito um curso na maternidade para pais de primeira viagem. Mas, na hora H, é diferente. Compramos uma banheira enorme e, nos primeiros banhos, o Gui sumia lá dentro!”, lembra Fábio.
Pelo jeito o papai de Gui aprendeu rápido. Depois de poucos meses, ele já sabia diferenciar os choros do filho: se era fome, dor de barriga ou sono... Descobriu que a proximidade com a cria é fonte de muitos ensinamentos. “Passamos por um grande apuro, num domingo à tarde, quando ele desatou a chorar sem parar e não sabíamos o que era. Tinha mamado, estava trocado. Então lembramos que fazia dois dias que ele não fazia cocô. Desde então, nunca mais deixamos de observar isso.”
As conquistas diárias do filho são sempre um encantamento pra ele. “Hoje mesmo estava pensando: 'puxa vida, meu filho brincando, correndo e eu sentado aqui olhando'. Essa sensação de vê-lo feliz e evoluindo não tem preço”, garante. Para o casal, não foi fácil ter um filho. Luciana tomava um medicamento forte e teve de parar para engravidar, esperar o organismo limpar... E depois que o bebê nasceu, foi aquela trabalheira, noites maldormidas, o cansaço, muitos gastos... “Mas quando a gente vê a criança crescendo saudável, sente que tudo valeu a pena. É nessas horas que penso: ‘nossa, como é que pode um pai largar um filho?’. Não dá pra entender”, emociona-se Fábio. E na hora da bronca, de falar mais duro com o Guilherme? “Ah, aí é comigo”, entrega Luciana. “Eu tenho mais esse papel de impor limites. O Fábio é meio mole com o Gui, deixa-o muito à vontade.”
Mudança de rotinaClaro que para estar mais presente na vida do filho é necessário intenção, vontade e investimento, como descobriu Edenir Casemiro, pai de Tereza, de 3 anos, que ele chama de Teretete. Sua rotina mudou drasticamente com a chegada da menina. “Nos finais de semana, passeio muito com ela, saídas curtas pra tomar um sol em parques”, descreve. “Eu estava com 46 anos, não esperava ter um filho. Mas me surpreendi comigo cuidando da Tereza. Acho que pai também tem instinto, como as mães, que se manifesta de várias maneiras. Eu recorro ao meu em várias situações, como quando fui com minha mulher procurar uma boa creche para deixá-la depois da licença-maternidade.” maternidade.” Mas garante que não chega a cometer os exageros das mães. “Sou contra essa coisa de ficar correndo atrás da criança o tempo todo pra colocar blusa, sapato. Tem de deixar andar descalça um pouquinho, deixar sentir o frio antes de pôr o agasalho. Faz parte do currículo”, acredita Edenir.
Ele adora contar histórias e brincar com Tereza, à noite. Mas também pega no pesado. Entre outras atribuições, Edenir é o responsável por acordar a filha toda manhã, vesti-la e prepará-la para a escolinha. “Levanto antes das seis da manhã, já deixo o rádio do quarto ligado, tocando música clássica. Lá pelas seis e meia começo a despertá-la, conversando com ela. Troco sua roupa, dou a mamadeira que preparei e a levo pra creche, junto com minha mulher.”
Momentos marcantes com Teretete, ele tem muitos. “Um dia eu estava ajudando um senhor a carregar as compras no prédio e lembrei do meu pai, que passou muito tempo internado antes de morrer.
Não consegui conter as lágrimas, entrei em casa chorando e fui direto pra cozinha. Minha filhinha foi atrás, pegou na minha mão e disse ‘não chora não, papai’. Foi maravilhoso”, lembra ele.
Se havia uma certeza na vida de Fábio Paranhos, gerente de recursos humanos, era a de que ele queria ser pai. De um time de basquete, de preferência. Não precisava ser cinco filhos biológicos, não. “Pensava em ter os meus e depois adotar também”, conta ele. Lá no peito batia um coração louco pra ser pai, mas ainda não tinha encontrado uma parceira para realizar esse sonho. Então, vê só como é a vida, seis anos atrás, lendo uma reportagem, ele descobriu que solteiros também podiam adotar. Então resolveu que não ia mais esperar nada, inscreveu-se no Fórum de Santo Amaro, em São Paulo, e passou por um processo que durou nove meses até ser aprovado pelo juiz como candidato a pai adotivo. “Ao contrário da maioria das pessoas, não procurava um bebê. Queria uma criança maior que pudesse dar algum sinal de que me aceitava como pai. Visitando uma instituição de crianças abrigadas, num dia em que havia uma festinha, tudo aconteceu. Uma garotinha de 3 anos colocou um salgadinho quente demais na boca e correu pra meus braços pedindo consolo. Falei é essa!”, lembra ele. Foi assim que Sofia, hoje com 9 anos, entrou na vida de Fábio.
Passeio e intimidade
Se criar filho com pai e mãe do lado já é difícil, imagina só com um dos dois. Mas Fábio tem se saído bem no papel de pai solteiro. Para ele, a principal dificuldade é decidir tudo sozinho, como escolher a melhor escola ou o médico. “Quando ela era menor, ir a banheiros públicos também era complicado. Tinha sempre que dar um jeitinho. Ou recorria ao banheiro para deficientes ou tampava seus olhos e a levava comigo no dos homens. Era sempre bem engraçado”, conta.
Fábio não reclama de nada e pensa até em, daqui um tempo, adotar outra criança. “Não tem o que pague a felicidade que ganhei com uma filha em minha vida, não tenho um segundo sequer de arrependimento”, garante. Por enquanto, o que anda tirando o sono de Fábio não é a garota, e sim o novo membro da família: o cachorro da Sofia.
O publicitário Renato Loureiro confessa que entrou em pane quando a mulher, Paula, engravidou. “Voltei a fumar muito, o que piorou as coisas porque ela tinha verdadeiro nojo do cheiro. Cheguei a dormir no sofá por conta disso”, relembra.
Desde o primeiro momento, porém, decidiu que entraria no figurino do pai que participa de tudo, tudo mesmo. Quando finalmente chegou a hora de Francisco nascer, Renato estava mais do que nervoso. Na última consulta do pré-natal, o sonho do parto normal foi por água abaixo: o casal ficou sabendo que o garoto não tinha encaixado, precisava fazer uma cesariana. Mesmo assim Renato queria assistir. Mas não havia ninguém para encaminhá-lo à sala de cirurgia.
Com medo de perder o grande acontecimento, ele empurrou a porta e foi entrando, sem máscara, sem avental, sem nada. Hoje se diverte ao lembrar do pulo que a médica deu: “Tira ele daqui!”. Na ante-sala, o marido da doutora (que a esperava para uma festa), providenciou a indumentária para que o ansioso papai assistisse à operação, de mãos dadas com Paula. Assim, meio clandestino, ele tratou de garantir sua presença na vida do filho desde a estréia do menino no mundo.
Hoje, além de Francisco, que está com 4 anos, ele tem a Mariana, de 1, e não desperdiça nenhuma oportunidade de estar cada vez mais próximo dos dois, construindo a intimidade. “Junto com a Paula, dei o primeiro banho de cada um. Sou eu quem faço a caçula dormir, à noite, e dou a mamadeira da madrugada”, conta, todo orgulhoso, garantindo que prepara uma papinha muito boa. Sempre que pode, Renato ajuda o mais velho com as lições de casa e adora passear com as crianças, sem a mãe. “Acho importante sair com elas sozinho, para que aprendam a gostar da companhia do pai”, diz. E explica que isso o ajudou a não se sentir tão “coadjuvante”, sobretudo no primeiro ano, em que as crianças são mais apegadas com a mãe.

reportagem de
www.revistapaisefilhos.com.br

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